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CARTA AOS MEUS AMORES GENTIS
[13/12/2002]
Se me exergassem com atenção, veriam que não desejo apenas companhia, mas alguém para comigo formar um par... Alguém para me acompanhar nas aventuras, em vez de me dizer: “vá sozinha” ou “não vá”... Alguém com asas maiores que as minhas, capaz de me levar além da imensidão azul, enquanto os outros insistissem em manter meus pés no chão...
Sou feliz e carinhosa com os gentis homens que me rodeiam, cheios de cuidados e olhares ternos, quase paternais. Eles me confortam e me amparam, mas, quisera eu, livrar-me desta alma ingrata que anseia um olhar mais afiado do que o deles. O de alguém que sabe violar e escavar o que existe no de mais de dentro da gente...
Eu abro as portas e minhas pernas de línguas fátuas para quem possui essa visão fálica e uma intenção mais contundente do que a de apenas acolher, como a dos cavalheiros gentis... Penetrar, mais que rasgar meus vazios, significa preenchê-los. Eis o que busco de maneira infatigável: a penetração.
Eu quero alguém que me pesquise de forma sistemática e sobre mim se debruce fascinado como um antropólogo diante de uma nova civilização... Eu quero alguém que me mapeie, me encha de significados e nunca tente me nivelar. Eu quero alguém que me transforme em desafio perene e não desista de mim, jamais! Eu escrevo sempre como quem conversa com as paredes.
Não me toca as profundezas quem procura me ajustar em formas, moldes, padrões já conhecidos e experimentados. A régua do senso comum sempre congela meu coração. As brasas do meu corpo se apagam diante da cegueira irreversível daquele homem ingênuo que espera que eu siga o curso de um rio tranqüilo. “Comprar casa, geladeira, fogão, noivar, casar, esperar o salário aumentar e planejar um casal de filhos para quando o inverno chegar” - qualquer planejamento soa como bocejos a esta rima miserável...
Eu amo o que está nas entrelinhas, o que foge do script, aquilo que “não tem controle nem nunca terá”, sou muito mais as viagens do que o destino...O que me atrai e me seduz é o inesperado, a surpresa, o inusitado. Eu gosto da vida quando ela se transforma numa cartola de mágico. Tudo que amo vem de atropelo... O amor que me encanta nunca estará me esperando numa boite, na mesa de um bar, na seção onde trabalho, na escola onde estudo, nas reuniões que freqüento, em nenhum lugar óbvio, feito de jeito para eu encontrá-lo. Não adianta eu sair com a intenção de achá-lo. O amor que desejo é aquele que me assalta feito um ladrão...
O amante mais sedutor surge como quem surge do nada, no momento mais inconveniente, da maneira mais ousada e quase sempre de forma mágica... O homem que desejo sempre chega como um sonho: fecha meus olhos, toma meu corpo, devora minha alma, não me deixa acordar. O amor que procuro não me deixa livre, mas antes, me amarra a ele, como se ele fosse um filme de bom enredo, um livro empolgante. Não existe lugar para ir, não há possibilidade de fuga nem o perigo de eu desaparecer de repente diante do meu amor verdadeiro... O amor com qual eu suspiro nunca me deixa sozinha, porque, por acaso ou não, sempre estará onde eu estiver... Eu quero um homem que se enxergue me enxergando. Eu quero me enxergar, enxergando-o...
Peço desculpas aos homens gentis em cujas portas erradas eu bato distraída, importunando-os com meus pedidos de amor. Mas, como mendiga de atenção, eu aceito contente o que me ofertam. Porque, solitária como sou, sentindo-me eternamente ímpar, eu não me importo de pedir ajuda e muito menos em ser ajudada. É assim que me sinto aquecida. Por isso, eu desprezo a liberdade dos solteiros. Não quero ser independente, imanente, uma célula auto-suficiente, autônoma, hermafrodita. Não quero a comodidade fria de um mundo “self-service”.
Quero antes, viver em rede; tomar de cada um o muito ou o pouco que me possam oferecer; adivinhar, só pelo andar, quem é o garçom que me serve; descobrir na voz o que se passa no coração da secretária. Quero sempre o contato, um motivo para procurar, para ver, ouvir, sentir, decifrar as pessoas.
Eu gosto do brilho que emana dos olhos de quem me ajuda. Este brilho ilumina meu caminho escuro. Não quero ambientes assépticos, sexo seguro e plastificado, comprar ingresso de cinema por microfones através de vidros, não quero ouvir mensagens de secretárias eletrônicas, comida embalada, ‘deliverys’, não quero evitar precisar de alguém.
Eu quero o hálito quente na nuca, o esbarrão do homem sujo no metrô, o odor do eletricista invadindo meu banheiro, o lençol molhado de sangue, suor e sexo. Eu preciso de tudo isto, de toda matéria viva e amontoada, para do meu íntimo sair pelo menos uma larva de vida. Eu preciso me sentir promíscua, incluída no mundo e não fora dele, como um satélite perdido.
Eu preciso da proximidade humana, como quem precisa da cachaça, para suportar esta espera longa por um amor que nunca vem me resgatar desta vida de pedinte. Um amor que me oferecesse casa, cama, carinho, comida, calor. Alguém que colasse este meu mundo picotado de abraços, palavras, sorrisos, beijos, gestos feitos de carnes diferentes e o transformasse numa peça inteira. Um amor que, por onde eu fosse, sempre seria meu par. Eu estou triste porque o relógio anda, o tempo passa e eu morrerei em trapos e farrapos, em busca deste amor.
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